A Musa

Meia-noite. Passam-se os sons, ficam-se as dores. O orgulho aqui sucumbe à música de amores. Formas distantes completam a sua imagem, imperfeita - o vício é muito mais que a paisagem. Seus erros e pedaços se distorcem em minha mente, mais profundo em minha carne, serei eu um louco? Doente? O fulgor da loucura preenche seus olhos, derramando lágrimas de açoite. Solitárias. Absolvidas no silêncio daquela noite. Seus dedos gentilmente dançam pela peça errante, um ódio que ecoa em um delírio, um torpe instante. Quis gritar e despetalar cada flor em desagrado do desejo, mas meu corpo cheio de pudor, meu ser imaculado desmontava em mais um dia sem teu beijo. A Lua impiedosa surge a pouco da aurora. A melodia se entorta e dilacera: lápis, papel e minha doce Manuela. Dedos desabam sobre a faca e a lâmina fria enfim lhe dá a solução, o cabo desalmado não lhe poupa nada, toma-lhe de assalto o coração. Vermelho. Os lábios dela se espalham em formas brutas no espelho. Seu rosto está no piso, mas o meu toma seu lugar. Num riso e num suspiro, é ela que então vem me matar...

2 comentários:

Moon Schatten disse...

Um belo e profundo texto. Aquele tipo de texto que consegue prender a minha atenção. Um toque de sentimento e uma gota de insanidade. Ficou muito bom. Parabéns.

Diogo Marques disse...

Pois é, a madrugada me inspira. Meus textos são sempre sombrios, e eu gosto disso. Obrigado ;]